Já que não tenho coragem de assumir a minha loucura, queria que ao menos
algum canto do mundo me acolhesse. E me abraçasse e dissesse que tudo
bem, tudo bem de vez em quando eu perder assim a razão ou o equilíbrio.
Eu queria que existisse um canto do mundo que nunca me dissesse “ei,
você se expõe demais” e que me deixasse ser assim e apenas me deixasse
ficar quietinha e quente quando o mundo resolvesse me magoar porque sou
briguenta, mas sou mais sensível que maria-mole em frigideira. Eu queria
ir para um planeta onde não existisse tempo de beijar e tempo de pirar.
E eu pudesse ir agora ao seu mundo e te beijar até enjoar de você. E eu
pudesse, de repente, gritar bem alto porque me irritam esses milhares
de sons tecnológicos que você faz. Para mostrar que meio mundo te
procura enquanto eu não posso te procurar porque a cartilha da vovó que
casou dizia que a mulher nunca pode procurar o homem se não quiser ser
usada por ele. Eu queria mandar pra puta-que-pariu a cartilha da vovó. E
queria tirar essa voz do meu pai da minha cabeça, dizendo “minha filha,
homem não gosta dessas coisas". Eu sei que sou exatamente o que 98% dos
homens não gostam ou não sabem gostar. Eu falo o que penso, abro as
portas da minha casa, da minha vida, da minha alma. Basta eu ver o sinal
de luz recíproca no final do túnel que eu mando minhas zilhões de luzes
e cego todo mundo. Sou demais, tanto que ninguém aguenta. Ninguém
entende nada. E eles adoram uma sonsa. Adoram. Mas dane-se. Um dia, um
louco, direto do planeta dos 2% de homens, aparece. E que se dane a
natureza gritando no meu ouvido que não posso ser assim. Que boa fêmea
sabe esperar nove meses, portanto deve saber esperar uma ligação ou um
sinal de "pode avançar no joguinho". Eu não sei esperar nada. E a
natureza gritando no meu ouvido então, já que sou birrenta, vou ficar
sem nada mesmo. Porque é preciso saber viver. Atiram a gente nesse
mundo, nosso coração sente um monte de coisa desordenada, nosso cérebro
pensa um monte de absurdo. E a gente ainda precisa ser superequilibrada
para ganhar alguma coisa da vida. Como se só por estar aqui, aturando
tanta maluquice, a gente já não devesse ganhar aí um desconto para
também ser louco de vez em quando. Quem é essa natureza maluca, quem é
esse mundo maluco? Quem são esses doidos que exigem tanta certeza e
tanta “finesse” e tanta postura da gente? E eu queria te beijar até
enjoar. Porque eu só sei curar uma vontade de me entorpecer de alguém
quando sugo a pessoa até a última gota. O problema é que nesse mundo sem
graça com celulares que apitam, mensagens no MSN que apitam e policiais
mentais que apitam "ei, segura a onda, não deixe ele perceber que pode
comandar até a última seu coração", ninguém mais sabe nem sugar e nem
ser sugado até a última gota. Fica uma droga de um joguinho superficial
de trocas superficiais. E ai de quem resolva sair disso. Vai ser tachado
de louco de pedra. Maluco. E as meninas sonsas se dando bem, e eu
dormindo abraçada com o travesseiro. Já que não tenho coragem de assumir
a minha loucura queria que ao menos algum canto do mundo me acolhesse. E
me abraçasse e dissesse que tudo bem, tudo bem de vez em quando eu
perder assim a razão ou o equilíbrio. E repetir, repetir e repetir o
erro. E jurar que da próxima vez eu serei normal. E jurar que da próxima
vez eu obedecerei á natureza, ao meu pai, à cartilha da vovó ou às
meninas sonsas. E virar a rainha dos 98% dos homens que não sabem o que
fazer com uma pessoa que nem eu. E depois chutar todos eles porque no
fundo to pouco me fudendo pra essa maioria de idiotas. Pode até ser meio
solitário nadar contra a maré, mas como é gostoso olhar a multidão do
outro lado e enxergar todo mundo pequeninho. (Tati Bernardi)
See Ya! beijomeliga...
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